Biodiversidade

Biodiversidade terrestre em números

A diversidade faunística e florística é muito rica nos arquipélagos da Macaronésia, mas é menor nos arquipélagos geograficamente mais afastados dos continentes (caso dos Açores), o que está certamente relacionado com a distância, a idade geológica e os vários acontecimentos históricos (e.g., vulcanismo, intervenção do ser humano) verificados em cada uma das diferentes ilhas.

Em 2010, o número total de espécies e subespécies terrestres (=taxa) nos Açores foi estimado em 6164, dos quais 452 são endémicos, correspondendo a 7,3% da diversidade total. Note-se que esses números são inferiores àqueles do arquipélago da Madeira, estimados em 7571 taxa terrestres, incluindo 1419 endémicos (19% da diversidade total). Porém, acredita-se que esses valores estão subestimados, dado haver espécies terrestres e marinhas (conhecidas e ainda desconhecidas para a ciência) que poderão elevar tal número para cerca de 10000 espécies e subespécies.

Entretanto, os artrópodes (Filo Arthropoda, que inclui os crustáceos, centopeias e milípedes, ácaros, aranhas e insetos, entre outros animais) apresentam a maior diversidade (2332 taxa), representando cerca de 42% das espécies encontradas nos Açores. Considerando todos os fungos (incluindo os líquenes) e as plantas com sementes (espermatófitas), eles representam o segundo (24%) e o terceiro (18%) grupos mais diversos de organismos nestas ilhas.

No caso dos insetos, os Açores têm menor riqueza específica (1773 taxa) do que a Madeira e Selvagens (3297 taxa). Em particular, os Odonata estão representados por quatro espécies confirmadas para o arquipélago açórico (mais duas esporádicas) e seis espécies para a Madeira e Selvagens, sendo que nenhuma das espécies é especificamente endémica destes arquipélagos. Contudo, Sympetrum nigrifemur é considerado um endemismo da Macaronésia, estando presente na Madeira e Canárias. Por outro lado, nos Açores reside uma «joia biológica», a libelinha Ischnura hastata, a única espécie de odonatos no Mundo com reprodução partenogenética (reprodução exclusivamente por via feminina, na ausência de machos; na natureza insular açórica nunca foram observados machos).

Os animais e as plantas terrestres são os grupos com maior diversidade em endemismos. Com efeito, nos Açores existem pelo menos 266 artrópodes e cerca de 80 plantas vasculares (Pteridophyta e Spermatophyta) endémicos.

Quanto aos artrópodes, a maior parte deles é exótica (58%). Por outro lado, mais de 60% da flora vascular dos Açores é considerada como exótica, enquanto os mamíferos (exceto os dois morcegos nativos), os anfíbios e os répteis foram introduzidos.

Número total e proporção de espécies e subespécies dos vários grupos de fungos (inclui os líquenes), plantas e animais terrestres do arquipélago dos Açores (adaptado de Borges et al., 2010).

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Conservação da biodiversidade

A educação ambiental facilita os conhecimentos sobre o meio, os valores e competências e também a experiência para atuar na prevenção dos riscos ambientais do presente e do futuro. Neste particular, considerando o número, o grau e a natureza das ameaças de muitas plantas endémicas e nativas, é importante haver a promoção de ações de sensibilização orientadas para a sua proteção, nomeadamente: o controlo e/ou a erradicação de espécies invasoras; a limitação do uso do solo pelo gado em zonas de vegetação nativa; evitar o pisoteio das plantas fora dos locais de visita turística; incremento das populações de efetivo reduzido, através da sua propagação noutros locais (e.g., viveiros); respeitar as populações das espécies endémicas de determinada(s) ilha(s), pois a troca de indivíduos entre ilhas pode perturbar a dinâmica dos mecanismos evolutivos.

Pela raridade, relevam-se três casos de endemicidade associada aos animais. Dentre os muitos insetos endémicos da ordem Coleoptera carecem de especial atenção os coleópteros cegos que vivem nas grutas e cavidades vulcânicas e aqueles que habitam em hotspots com áreas de reduzidas dimensões (e.g. no Pico Alto, em Santa Maria). Ao nível das aves, o priolo Pyrrhula murina, único pássaro endémico terrestre dos Açores, cujo habitat está restingido à parte Nordeste de São Miguel e cuja população rondará os 400-500 indivíduos, tem sido exemplo de medidas de conservação importantes. Também, o diurno e inofensivo morcego-dos-Açores, Nyctalus azoreum, único mamífero endémico do arquipélago, deverá ser alvo de medidas de proteção para se evitar o declínio do seu efetivo populacional e, assim, maximizar o elevado potencial predador de insetos prejudiciais à agricultura e à saúde humana.

 

Virgílio Vieira

2018