Ecossistemas de água doce

Águas superficiais lóticas

Os ecossistemas de água doce desempenham um importante papel, sobretudo na paisagem, no abastecimento de água às populações e como recurso hídrico na produção de energia e na permanência dos canais (levadas) dos moinhos de água.

A hidrologia dos Açores é caracterizada por lagoas, ribeiras, águas de transição, águas costeiras e águas subterrâneas. As especificidades hidrológicas resultam das particularidades geográficas, climáticas e geológicas do arquipélago. O biota desses meios é condicionado pelo grau de permanência da água, havendo geralmente maior diversidade nas massas de água permanentes do que nas do tipo temporário.

Nos Açores, as águas superficiais lóticas de regime permanente (ribeiras) somente existem nas ilhas de Santa Maria, São Miguel, São Jorge, Faial e Flores. As ribeiras são alimentadas por lagoas ou por nascentes de maior caudal, localizadas no interior das ilhas e, no caso de São Jorge, pelas nascentes da costa Norte.

Estão identificadas 736 bacias hidrográficas, sendo que a grande maioria das ribeiras tem área de drenagem inferior aos 10 Km2, são de caudal não permanente e de regime torrencial. Por exemplo, os principais cursos de água permanente na ilha de São Miguel integram as bacias hidrográficas da Ribeira Grande, Ribeira do Guilherme, Ribeira do Faial da Terra, Ribeira do Purgar e Ribeira Quente.

As levadas mais importantes (canais ou aquedutos de água de irrigação que geralmente irradiam dos pontos mais elevados e centrais da ilha) situam-se no Faial e em São Miguel (e.g., Lagoa do Fogo). Os aquedutos ou «muros» de pedra do Carvão e das Nove Janelas (Sete Cidades) são testemunho da arquitetura associada ao abastecimento de água. Por outro lado, os reservatórios de água são monumentais na ilha Graciosa.

As cascatas, quedas de água devidas à disposição natural do terreno ou à ação do ser humano, são comuns nas ilhas (e.g., Santa Maria, São Miguel e Flores).

 

Águas superficiais lênticas

As 88 lagoas constituem-se como massas de água muito importantes para a dinâmica hidrológica das ilhas, visto funcionarem como reserva e como origem da água de alimentação das ribeiras. Encontram-se distribuídas pelas ilhas, nomeadamente de São Miguel, Terceira, Pico, Flores e Corvo. A superfície lacustre dos Açores ocupa 0,4% do território regional (cerca de 9,5 Km2), situando-se cerca de 90% desse valor em São Miguel.

As lagoas dos Açores são massas de água de relativamente pequenas dimensões, variando entre 0,5 e 10 km2 de área. As lagoas maiores estão todas localizadas na ilha de São Miguel: lagoa das Sete Cidades (uma das sete maravilhas de Portugal), das Furnas e do Fogo. Os lagoeiros têm ainda menores dimensões do que um hectare. Os charcos são massas de água parada de carácter permanente ou temporário, de tamanho inferior a uma lagoa e superior a uma poça (pequena massa de água efémera, que normalmente é possível atravessar com um só passo).

As águas de transição são massas de água na situação de transição entre o ambiente terrestre e o ambiente marinho, com características intermédias entre águas interiores e costeiras, sendo influenciadas por água doce. Constituem-se como ecossistemas costeiros únicos, compreendendo lagoas e pântanos. Disso são exemplos as lagoas das Fajãs dos Cubres e de Santo Cristo, na ilha de São Jorge. Os casos dos pântanos de Juncus nas Lajes do Pico e do Pântano do Paul na Praia da Vitória (Terceira) são excelentes lugares de descanso de algumas aves de migração, pernaltas dos Açores.

No arquipélago, as massas de água artificiais encontram correspondência nas lagoas artificiais, criadas pela atividade humana e utilizadas no abastecimento à população (como reforço em épocas estivais) e na atividade agropecuária. Estão identificadas três lagoas artificiais destinadas à atividade agropecuária (ilha de São Miguel – lagoa artificial das Contendas; ilha Terceira – lagoa artificial dos Altares/Raminho; ilha do Faial – lagoa artificial do Faial) e uma como reforço ao abastecimento público (ilha do Corvo – lagoa artificial do Corvo).

Os bebedouros do gado espalhados pelas pastagens das ilhas açorianas também desempenham um papel importante na reprodução dos Odonatos (libélulas), especialmente nas ilhas e regiões onde escasseia a água (e.g., Graciosa). Os fontenários públicos para abastecimento de água abundam nos centros populacionais dos Açores, desde longa data.

A floresta Laurissilva e as turfeiras desempenham um papel relevante no equilibro hídrico das ilhas. Esta floresta, pelas suas caraterísticas hidrológicas, é considerada uma floresta «produtora de água».

 

Virgílio Vieira

2018